8.1.06

Banda Desenhada- a história continuada


A revista Tintin na sua edição portuguesa, propriedade da Bertrand e dirigida então por Dinis Machado, tinha um suplemento de interesse relativamente a quaisquer outras que então também se publicavam, como o Jornal do Cuto da Portugal Press e até a revista Spirou , tradução da francesa homónima e também propriedade da Bertrand A Spirou abrigava o talento genial de Franquin e ainda os desenhos de Peyo e Roba. O Tintin reunia em publicação o melhor de dois mundos da escola franco-belga da bd.
A par das historietas da edição belga editada pela Lombard , com extensão na Dargaud francesa, a versão portuguesa do Tintin, tinha a exclusividade da publicação de outras histórias de outra revista: a Pilote editada pela.. .Dargaud francesa.
Esta revista portentosa da bd francesa, publicou durante anos a fio, desde 1959, alguns dos melhores autores de banda desenhada de sempre, com destaque para René Goscinny, Uderzo, J.M.Charlier, Greg e Morris. Para além de Jean Giraud, alias Gir, alias Moebius, este último já habitante de um… universo paralelo.
O meu primeiro contacto com estes nomes e as historietas que desenhavam, por conta da Pilote e da editora Dargaud travou-se, por isso, nas páginas do Tintin português. Durante os quatro primeiro anos dos setenta, já tinha desse modo, lido quase toda a obra de Astérix, Lucky Luke e alguns álbuns importantes de Blueberry , em fascículos semanais. Possivelmente, a primeira vez que olhei para uma vinheta Blueberry, foi no Tintin de 14.4.1973. Foi esta imagem que vai ao lado de uma outra de Lucky Luke, da mesma altura- Mamã Dalton :
A primeira aventura integral de Blueberry que vi publicada, foi em 21.7.1973, no Tintin português, com o título O Homem do Punho de Aço , cujo estilo de desenho ainda deve muito a mestre Jijé. Só mais de um ano depois, vim a descobrir a história de Chihuahua Pearl, num álbum cartonado, original e que comprei nessa altura, cuja página com o dólar rasgado, se pode ver assim, com uma capa fabulosa, também assim:
Todos os santos Sábados, durante dois anos que terminaram em 1974, terminadas as aulas do Liceu, antes do meio dia e meia hora, corria para a livraria Bertrand local, para evitar a hora do fecho e assim comprar as duas revistas para o regalo visual do fim de semana. Por vezes, recolhia também a Spirou, para ler as aventuras de Spirou e Fantasio e durante uns meses do ano de 1972, juntei a essas leituras o Jornal do Cuto.
Esta revista, sem páginas coloridas para além da capa e contracapa, propriedade de Roussado Pinto, mentor de outras revistecas manhosas e de cordel, publicava as aventuras desenhadas por autores únicos: Arturo del Castillo, Alex Raymond, E.T.Coelho, Vítor Peon, Alberto Salinas e José Luis Salinas e ainda Russ Manning e Bud Sagendorf. Para além disso, consagrava duas páginas à história da 9ª arte, a BD, precisamente, assinadas por Roussado Pinto.

A mistura da leitura dos Tintins, ao Sábado, com o eventual Spirou e o jornal do Cuto às quartas-feiras, preenchia plenamente a semana cultural, nesses anos primordiais, juntando-se as mesmas à Vida Mundial que saía às sextas feiras.

No Tintin belga, habituei-me a ler em papel couché e formato um pouco maior as histórias em primeira mão, de Comanche e Bernard Prince . Ambas assinadas por Hermann com argumentos de Greg e que em nada desmereciam as qualidades gráficas e narrativas do grande Gir de Blueberry , publicado na Pilote e também, meses depois, na Tintin nacional.

Neste Tintin logo em Fevereiro de 1972, a história que enchia o olho estava a acabar. Era o Bernard Prince de Hermann e Greg, com a Passageira. Mas havia mais: Tanguy e Laverdure, desenhado então pelo mestre Jijé que reproduzia em desenhos bistorietas que se podiam ver na série de tv, denominada Os Cavaleiros do Céu, criada em 1967 pela tv francesa e que passou em Portugal, mais ou menos nessa altura, para grande gáudio das tardes bem passadas à frente da tv e para variar do suporífero Carrossel Mágico.
De tal modo essa série televisiva era esperada que nessa altura nem me apercebera que era a historieta desenhada, começada aliás no final dos anos 50, que dera origem à série televisiva. A Luta no Deserto, título da história que se publicava no início de 1972 ,já focava problemas com árabes, numa perspectiva realista.
Outra grande história de aventuras movimentadas, era Bruno Brazil , desenhado pelo virtuoso William Vance que no Tintin belga de final do ano de 1972 assinou uma espantosa série desenhada que começava num ambiente mafioso e numa inovação gráfica de cortar o fôlego em papel de lustro: Sarabande a Sacramento ! A paginação e o enquadramento dos planos e o desenho preciso e realista de interiores e de carros, terminavam com qualquer veleidade ao desenhador principiante que se aventurava no desejo de copiar imagens. Aquelas 4 primeiras páginas no Tintin de 5.12.1972 acabaram com as minhas fantasias de um dia poder vir a ser um desenhador de BD e transformaram-me ao mesmo tempo, num desenhador frustrado e admirador incondicional desses artistas do lápis e dos pincéis coloridos.
No Tintin português, o interesse pelas aparentes histórias anódinas crescia à medida em que entrava na trama do enredo. Até um inocente Clifton e um descuidado Spaghetti tomavam força de leitura obrigatória todos os Sábados em que a capa das revistas que se sucediam eram sempre a novidade e surpresa da semana.

Em 1972, o Tintin belga publicava Comanche em Les loups du wyoming, uma grande série e um fresco notável sobre o oeste americano que só mesmo em cinema- e raramente- se via. A mestria do traço de Hermann marcaria um gosto que perduraria uns anos e se estenderia à outra série do autor: Bernard Prince , que me deixara embasbacado ao ver A Passageira, mesmo a meia dúzia de pranchas do fim. Outro motivo sério de encanto, eram as imagens da série Lefranc, desenhadas por Jacques Martin.
Só por causa dessas duas séries, comecei a comprar o Tintin belga em Agosto de 1972, já a série dos Les Loups ia quase a meio e a quadrilha dos Dobbs ainda andava á solta, perseguidas pelo cowboy Dust ajudado pelo Preacher man.
Foi aliás, a série Comanche, que me suscitou maior curiosidade, ainda no tempo em que nada mais vira do que umas pranchas isoladas, nas páginas de novidades assinadas no Tintin português por Vasco Granja, um incansável divulgador da bd em Portugal.
No número 45 do Tintin de 1.4.1972, um desenho a preto e branco de Comanche, de uma aventura ainda desconhecida, abria um mundo de fantasia para mim, só ultrapassado nessa altura pelas aventuras de Bernard Prince do mesmo autor- Hermann- e que se desenrolavam em ambientes exóticos, em que um barco chamado Cormoran, entrava sempre como meio de transporte principal.

Foi por isso mesmo que a atenção para Tintin Belga se tornou irresistível.