Blueberry por Gir
A foto de Jean Giraud, saiu do livro Trait de Génie- Giraud Moebius, uma espécie de catálogo da exposição do artista, no Musée de la bande Dessinée entre 26.1.2002 e 3.9.2000.Para mim, a história de Blueberry, oficial desenhado do exército americano dos tempos da conquista do Far west, em personagem de banda desenhada franco-belga, começou no Tintin, edição portuguesa, em 1973.
No Verão desse ano, no Tintin de 21 de Julho, a aventura O Homem do punho de aço, foi o começo de uma relação estética duradoura, com o autor dos desenhos, Jean Giraud, que perdura há longos anos.
Nessa aventura, o traço de Jean Giraud, ainda não tinha ganho autonomia suficiente do meste Jijé, desenhador belga nascido em Bruxelas, em 1914 e baptizado Joseph Gillain.
Por outro lado, o Tintin, dessa época, que comecei a ler com atenção devoradora, em Fevereiro de 1972, tinha já publicado outras historietas de outros autores que me prendiam a atenção, semana após semana, logo a partir dos Sábados pela tarde.
Vindo do Liceu, cujas aulas acabavam às 12h 20m. , era uma correria semanal, à Bertrand local, para comprar o número da cada semana, antes das 12h e 30.
Em Julho, portanto, era período de férias. As surpresas do Tintin, dessa época, eram a aventura de Bernard Prince, A fornalha dos condenados, uma das melhores histórias que li, sobre aventura, ulttrapassando muitos filmes em sequência narrativa e suspense. Da autoria de Hermann, com um estilo de desenho e virtuosismo, muito próximos de Jean Giraud. Também nessa altura, já tinha lido e visto historietas de Astérix, Lucky Luke, Lefranc, Bruno Brasil e Blake & Mortimer, só para citar alguns dos mais notórios heróis da bd franco-belga.
Sobre Blueberry, se tivesse começado antes a ler o Tintin, teria visto cerca de um ano antes, em 3.7.1971, o começo da história O Cavalo de Ferro, sobre a conquista do oeste americano, por via férrea.
Assim, o primeiro contacto directo com a arte de Giraud, a desenhar Blueberry, foi com o Homem do punho de aço, cuja história terminou no Tintin do número de Natal, de 22.12.1973, em que se prometia a publicação, “oportunamente”, do episódio seguinte: A pista dos Sioux. A oportunidade, surgiu no número de 24.8.1974.
Durante o ano de 1974, porém, aconteceu algo que modificou a minha visão das histórias de Blueberry.
Aquelas duas historietas, eram já datadas, na época em que foram publicadas pelo Tintin português que tinha o exclusivo, da publicação em Portugal, da banda desenhada franco-belga, originalmente mostradas nas revistas Pilote francesa e Tintin, belga. O Cavalo de Ferro, O Homem do punho de aço e a Pista dos Sioux, são de 1970 a 1971
A revista Pilote, acolhia Blueberry e Giraud, desde o início da publicação das suas histórias, em 1965, com Forte Navajo.
O Tintin português publicava as histórias com o desfasamento temporal, derivado de critérios editoriais. Em 1974, já tinham aparecido originais de histórias de Blueberry que ainda não conhecia da revista:
O general cabeça amarela; A mina do alemão perdido, O espectro das balas de ouro e principalmente Chihuahua Pearl que apenas conhecia de fotos na revista e referências dispersas e que acabei mesmo por comprar na edição em álbum, francesa da Dargaud, nesse ano de 1974.
A edição de bd, no início dos anos setenta, em Portugal, para os aficionados, incluía algumas importações, ainda na Bertrand e Chihuahua Pearl, é uma viragem na abordagem das histórias de Blueberry. Os dois álbuns que se lhe seguem, O Homem que valia $ 500 000 e Balada para um caixão, de 1973 e 1974, constituem com aquele, uma trilogia que só tem epílogo no álbum seguinte, O Fora da Lei. A melhor época de Blueberry.
No início de 1974, começou a aparecer nos escaparates da mesma livraria que vendia o Tintin português e ainda a edição original, belga, a revista francesa Pilote.
Graficamente renovada, desde essa altura ( o logotipo mudou no início do ano de 1974, com o( nº 739), a revista não se apresentava no seu formato clássico de anos e anos que nunca conheci em directo, mas apenas em diferido, devido à consulta posterior, ainda nos anos setenta, dos álbuns recolha de números antigos.
Assim, durante o ano de 1974, ocorreu um fenómeno curioso, de corte da diacronia já ocorrida com a leitura do Tintin Português: ocorreu-me ler nessa altura, histórias de anos anteriores, publicadas nessas recolhas, em volume, de três meses da revista, ao mesmo tempo que acompanhava o surgimento de novas experiências do artista em novas aventuras, de revista. Foi isso que sucedeu com a trilogia que se seguiu a Chiuahua Pearl, com destaque para a obra de grande fôlego gráfico que é Balada para um caixão.
Em Junho de 1974, numa incursão à Bertrand de Lisboa, descobri a existência de um dos melhores volumes da revista: o 65 que inclui números dos primeiros três meses de 1973.
Logo no primeiro nº, o 688, a capa é um soco na imagem de Giraud. É nesse número que aparece pela primeira vez, uma incursão de sete páginas que nada têm a ver com o estilo do criador de Blueberry, a não ser no traço pespontado, herdado de mestres da escola clássica como Rembrandt.
La déviation, nessa historieta, é o desvio fatal para um heterónomo fantástico de Jean Giraud: Moebius.
A experiência de ver as imagens desenhadas num estilo diverso, descobertas em Junho de 1974, mas do ano anterior, associa-se à de ver outras, publicadas entretanto, na Pilote nº 749, de Março de 1974, sobre o tema geral da ficção científica.
Ainda sob assinatura de Gir, aparece mencionado pela primeita vez e lado a lado, o major Grubert e as Maravilhas do Universo.
Moebius, já não anda longe, embora Blueberry se mantenha, melhor que nunca. A seguir a Fora da Lei, surgiu em 1975, Angel Face, um dos outros cumes da arte de Giraud.
Este, acabará por confessar mais tarde que a personagem o esgota de labor e é-lhe necessário um estado de graça para a desenhar.
No nº 700, de 5.4.1973, na recolha nº 66 ( comprado em Agosto de 1974) , com a capa de caricatura de Hitler, por Morchoisne, surge então na Pilote, uma das melhores histórias de Blueberry- L´Outlaw, originalmente anglófono, passado a L´hors de la loi, em álbum aparecido no Outono de 1974.
Em Junho do mesmo ano de 1974, a Pilote, ainda dirigida por René Goscinny, sofre outra reforma de vulto. Deixa de ser semanal, passa a mensal, muda de formato e assume uma vertente mais jovem-adulta.
O primeiro número, da nova série, é um achado gráfico na capa e contém, logo na pág. 78, uma página ilustrada por Gir que definitivamente deixou de o ser, na Pilote.
As aventuras de Blueberry, desde L´Outlaw, deixaram de aparecer na revista e o álbum que segue a Angel Face, Nariz Partido, de 1975, só surgirá nos anos oitenta.
Nariz Partido, A longa marcha e A tribo Fantasma, surgem por isso, em álbum, no início dos anos oitenta.
Ainda assim, Nariz Partido, foi publicado em fascículos, de várias páginas, em Fevereiro de 1979, no 38 da revista Métal Hurlant, surgida quanto anos antes, no início de 1975.
Mas não é a mesma coisa. O formato e as cores, dessa nova aventura de Blueberry, resultam agora, melhor, em álbum, cartonado e com as cores dos franceses.
Os trabalhos seguintes de Giraud, sobre Blueberry, são retomas de temas já explorados, até ao último álbum da saga que contempla imagens redesenhadas de outras histórias anteriores, numa espécie de best of gráfico e com história original, chamada Apache.
E continua. Ficam por enquanto as imagens que ilustram o texto:
Uma reportagem da revista Boï Doï, de Julho de 2003, ao lado de um volume esgotadíssimo sobre Gir/Moebius, de 1974.


As primeiras imagens das historietas, O Homem do punho de Aço e A pista dos Sioux, publicadas no Tintin, edição portuguesa.


O álbum Chihuahua Pearl, comprado numa Bertrand, em 1974 e uma página ilustrada de Moebius, ainda sob o nome Gir, na Pilote, de 1973, com um auto-retrato do autor.


Duas imagens originais das páginas da revista Pilote.


A revista Metal Hurlant, onde se publicou Nez Cassé.























